Haviam ainda muitas palavras a serem ditas, mas apenas sílabas sem sentido saíam de sua boca. A porta ainda rangia, ele acabara de sair e havia batido a porta bruscamente. Fora isso, tudo era silêncio, vazio. Ela não esperava que tudo fosse terminar assim. Planos, sonhos, via tudo descer montanha abaixo. No quarto, ainda desarrumado, restavam fotos de muitos momentos felizes que passaram juntos. Lembrou-se da caixa, daquela caixa. Desde o início do namoro ela guardava tudo. Bilhetes, cartas, entradas de cinema, fotos, mensagens, as pétalas das primeiras flores que havia recebido estavam ali, dentro daquela caixinha, em formato de coração.
Abriu o guarda-roupa e assustou-se ao perceber que não lembrava onde havia deixado, afinal havia tanto tempo que não via a caixa. Nervosa, recomeçou a chorar, como se aquela caixa pudesse reconstruir todos os pedacinhos do seu coração que haviam se perdido naquela noite. Finalmente a encontrou. Com cuidado, posicionou com firmeza o banquinho que havia no quarto e pegou-a na prateleira mais alta do seu armário. Ainda trêmula, sentou-se na cama e fechou os olhos. Mas, doía demais. Ao fechar os olhos, reviveu toda a cena daquela noite.
Comemoravam quatro anos de namoro, quando ele disse que precisava conversar com ela. Não sei se por telepatia ou algo do gênero, ela sentiu-se arrepiar. Foram para o quarto, precisavam conversar à sós. Tudo ainda era muito confuso para ela. Nada fazia sentido. Ele dizia que estava confuso, que não sabia se gostava dela como antes. Que precisavam dar um tempo. Sua alma foi dilacerada e mil pedacinhos estavam espalhados pelo quarto. Ela tentava recuperá-los, mas como era difícil! Abriu os olhos, ainda ofegante. Aos soluços abriu a caixa. Quatro anos de sua vida foram eternizados ali dentro daquele mundo tão pequeno.
O primeiro achado foi a primeira foto que tiraram juntos. Quanto tempo havia passado... Nós estávamos no aniversário da minha melhor amiga! Como foi boa essa época. O meu rosto, o dele... O quanto mudamos? Nem eu mesma saberia explicar. Estávamos tão felizes. Ainda estávamos naquela época de incertezas. Não sabíamos se o outro sabia do sentimento que cada um guardava. Só nossos melhores amigos e confidentes sabiam. Uma dor a queimava por dentro, queimava seu coração, seus sentidos, sua razão. Uma pontada de saudade de toda aquela inocência de menina também tomava conta do seu ser, embora ela não percebesse.
Acariciou as pétalas secas do primeiro buquê de rosas que recebera. Foi numa manhã chuvosa de julho, no dia que completaram o primeiro mês de namoro. Tudo havia dado errado naquele dia, mas as flores animaram o seu espírito. E hoje começavam a deixar rastros de saudade. Ela cheirava as pétalas, já secas, tentando sentir aquele delicioso frescor novamente.Aquele dia começou tão mal.Eu estava muito chateada por ter ido muito mal no teste de gramática. Estudei todas as intermináveis regras de concordância, mas tudo aquilo não entrava na minha cabeça. Além disso, tinha um professor que cismou comigo e as aulas dele se tornaram insuportáveis.Quando saio pela portaria da escola, lá ele está ele, o amor da minha vida, de braços abertos para me receber! Com um lindo buquê de rosas amarelas, as minhas preferidas...
Ainda com muitas lágrimas nos olhos decidiu fechar aquela caixa. Não queria mais saber daquilo. Ele pediu um tempo e ela tem agora o direito de dar-se um tempo, igualmente. Seria bom, afinal para repensar tudo. Embora a atitude dele a tenha pego desprevenida, ela sentia que ele não era o mesmo de antes, estava muito distante. Além do fato de ter começado a ser grosseiro e a magoá-la. Afinal, seria bom um tempo para os dois, um tempo para ela. As feridas doem. Queimam. Arrancam um pedaço de uma parte nossa, que não queremos que vá embora. Mas, passa. E o seu coração irá encontrar um novo caminho, sempre há uma porta aberta.
| Beatriz Amorim|
Obs: Texto fictício. (:


